"Vamos supor", disse a senhora Bubis, "que neste preciso momento há um toque na porta e entra o meu velho amigo crítico de arte. Senta-se aqui no sofá a meu lado e, um de vocês, mostra um desenho de Grosz, não assinado, que quer vender. Eu olho para o desenho, sorrio, saco o meu livro de cheques e compro-o. O crítico de arte, que não está depressivo, olha para o desenho e tenta fazer-me reconsiderar. Acha que não é um Grosz. Eu acho que é. Qual dos dois está certo?""Vamos contar a história de outra maneira. Você" disse a senhora Bubis apontando para Espinoza, "apresenta um desenho não assinado e diz que é de Grosz, tentando vende-lo. Eu não sorrio e olho-o friamente, aprecio o traço, o controle da mão, a sátira, mas nada do que vejo me impressiona. O crítico de arte faz um exame minucioso e fica depressivo, o seu estado normal, e, de vez em quando, vai fazendo uma oferta, uma oferta que excedia as suas posses e que, se fosse aceite, condena-lo-ia a tardes sem fim de melancolia. Tento mudar a sua ideia. Digo-lhe que o desenho me soa a suspeito porque não me fazia sorrir. O crítico diz-me que, finalmente, estou a olhar para o desenho como um adulto e dá-me os parabéns. Dos dois qual está certo?"
"2666" de Roberto Bolaño, um livro que me foi dado pelo meu irmão João neste Natal, que me agarrou desde o princípio e que é, na minha opinião a re-imaginação da novela.

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