quinta-feira, 15 de abril de 2010

DAS HISTÓRIAS DE LOBOS

O Caso de Gévaudon

Os lobos são personagens principais de um sem número de contos, repetidos por toda a Península Ibérica e Europa. Todas estas histórias , se não são iguais, são muito parecidos. Mas o caso de Gévaudon é diferente e bizarro.
Entre os anos de 1764 e 1767, começaram a ser atacadas e mortas, jovens mulheres, adolescentes dos dois sexos e crianças. Neste espaço de três anos, morreram, pelo menos, duzentas pessoas. Os ataques davam-se em Longogne, Aumont, de Ruynes a Pinols e Saugues, Auvergne, Saint Flour, Saint Chély d'Apcher e outros locais das redondesas, neste Sul de França.
Os acontecimentos aconteciam por vagas. Tanto havia uma série de mortes, como logo se seguia uma temporada de paz.
As especulações eram muitas, mas ninguém sabia dizer ao certo, quem fazia as matanças e que alimária sanguinária andava por ali.
O padre François Fabre, da paróquia de Gévaudon, afirmou tratar-se de um lobo de grande tamanho; outros diziam serem animais fantásticos como um Urso de Nandi (1), um Wendigo (2), um Chupacabras ou um Lobisomem; havia também quem afirmasse que era um animal exótico como uma hiena ou um babuíno e havia ainda aqueles que diziam ser um instrumento divino, uma criatura do Diabo, ou um castigo de Deus . Havia quem falasse em bruxaria.
Tendo o assunto chegado ao rei, Luís XV, ao tempo preocupado com as lutas entre protestantes e católicos, lutas essas que só teriam fim quando passou a haver tolerância religiosa, este tomou várias decisões em relação a um assunto que estava a preocupar a França, onde já se dizia que estas mortes eram provocadas pelos Jesuítas, para provocar desacatos religiosos. Primeiramente enviou o exército, tropas comandadas pelo capitão Duhamel, que não obteve resultados. Depois instituiu um prémio de grande valor, o que provocou a chegada de um sem número de caçadores, vindos de vários pontos de França e de fora do país. Não se conseguiu apanhar a fera.
A população desarmada depois do fim das lutas religiosas, sofria do pavor de não poder ir trabalhar, indefesa, por poder ser atacada, e da sobrecarga de impostos decidida para pagar todos os esforços que se estavam a fazer para os libertar da alimária.
Mandou então o rei avançar para o local um tal Martin Denneval, o maior caçador de lobos de França, que não obteve resultados e disse que o animal não deveria ser um lobo ou, se fosse, seria um animal fora do comum.
Donneval foi substituído pelo melhor atirador do rei, M. Antoine de Beauterne, tenente do Louveterie (3), que conseguiu matar um lobo em 21 de Setembro de 1765, animal esse que foi entregue no Museu de História Natural de Paris.
Entretanto alguém começou a espalhar que o culpado deste terror seria o filho de Jean Chastel, Antoine Chastel, por ser uma pessoa estranha, que vivia isolada e na companhia de animais. Este homem esteve em África, onde tinha como serviço cuidar de animais estranhos e exóticos, e por isso suspeitavam que ele tivesse trazido um animal selvagem, uma hiena híbrida ou lyacon, que é um cão selvagem africano, em Angola chamado Mabeco e que é muitíssimo feroz. Além disso a população achava que a família Chastel dava guarida a lobos híbridos, que eram propriedade de um nobre da região chamado Jean-François Charles de Morangiès.
Um dia a noiva de Jean Chastel foi atacada e ele fez três balas de prata, tendo para isso derretido uma medalha de prata com a efígie da Virgem, balas essas que foram benzidas pelo pároco de Gévaudon. Feito isto partiu para se juntar às tropas do marquês d'Apcher e, em 19 de Junho de 1767, matou o animal, o qual foi embalsamado para ser levado para Paris, para ser recebido o prémio. Mas, não sei porque razão, apodreceu e ficou muito desfigurado , tendo que ser enterrado.
Segundo dizem, para matar o animal, Jean Chastel afastou-se das tropas, chamou-o, ele veio e matou-o. Depois de se ter morto o bicho, Antoine Chastel nunca mais foi visto...

1 - É um cryptid que parece ter vivido em África. O seu nome vem dos Nandi, povos que viveram no Quénia. Denominaram-no Kerit Nandi e a lenda local dizia que este animal só comia o cérebro das pessoas. As descrições dizem ser um carnívoro feroz, muito poderoso, de grandes ombros elevados, com mais de quatro metros de altura, e tendo a posição quando em pé, de uma hiena. Houve quem afirmasse ser uma hiena não identificada, ou de uma sub-espécie desconhecida. É um animal lendário.
2 - Criatura da mitologia Algonquian. É uma fera carnívora, na qual se podiam transformar certos homens ou que podiam possuir os seres humanos. Falar deste ser é tabu.
3 - Louveterie era um corpo de soldados, criado por Carlos Magno em 812, para matar lobos e que ainda estava no activo no tempo de Luís XV.

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