quarta-feira, 14 de abril de 2010

COMPLEMENTOS PARA A VISITA PAPAL

A Inquisição e o Declínio do Império Português

Quando os portugueses conquistaram a América do Sul, estavam na vanguarda da técnica de navegação. Um empenho em aprender com cientistas, muitos deles judeus, fizeram com que os conhecimentos adquiridos fossem directamente traduzidos em aplicações práticas; e, quando em 1492, os espanhóis decidiram compelir os seus judeus a professar a fé cristã, ou a abandonar o país, muitos encontraram refúgio em Portugal, nessa época mais complacente quanto aos seus sentimentos anti-judaicos. Mas em 1497, pressões da igreja católica em Espanha levaram a coroa portuguesa a abandonar essa tolerância. Cerca de 70.000 judeus foram forçados a um baptismo espúrio, embora válido como sacramento. Em 1506, Lisboa viu i seu primeiro "progrom", que deixou um saldo de 2.000 cristãos-novos mortos (A Espanha já tinha adoptado a mesma prática há 200 anos). Desde então a vida intelectual e científica de Portugal desceu a um abismo de intolerância, fanatismo e pureza de sangue.
O declínio gradual. A Inquisição Portuguesa só foi instalada na década de 1540 e o seu primeiro auto-de-fé três anos depois; mas só se tornou sombriamente implacável na década de 1580, depois da união das coroas portuguesa e espanhola.
Muitos estrangeiros, comerciantes e homens de ciência, acharam que, entretanto, a vida de Portugal estava a ficar demasiado perigosa para justificar a saída do país em massa. Levaram com eles dinheiro, experiência comercial, ligações, conhecimentos e - ainda mais importante - aquelas qualidades incomensuráveis de curiosidade e inconformismo que constituem
o fermento do pensamento.
Foi uma perda, mas em questões de intolerância a maior perda é a que o perseguidor inflige a si próprio. É esse processo de auto-diminuição que confere à perseguição a sua durabilidade e a torna, não o acontecimento de um dado momento, ou de um reinado, mas de vidas inteiras, de gerações e de séculos. Em 1513, Portugal precisava de astrónomos; na década de 1520, a liderança científica tinha acabado. O país tentou criar uma nova tradição astronómica e matemática cristã, mas fracassou, até porque os bons astrónomos foram alvo de suspeita de judaísmo.
Tal como em Espanha, os portugueses esforçaram-se ao máximo em fechar-se a influências estrangeiras e heréticas. A educação formal era controlada pela Igreja, que mantinha o currículo medieval centrado na gramática, retórica e argumentação escolástica. Característicos eram os exibicionismos e o bizantinismo (247 regras rimadas e decoradas da sintaxe de substantivos latinos). A única ciência de nível superior seria encontrada na faculdade de medicina de Coimbra. Mesmo aí, porém, poucos professores estavam dispostos a trocar Galeno por Harvey, ou a ensinar as ideias ainda mais perigosas de Copérnico, Galileu e Newton, todos banidos pelos Jesuítas ainda em 1746.
Deixou de haver mais jovens portugueses a estudar no estrangeiro e a importação de livros era rigorosamente controlada por fiscais enviados pelo Santo Ofício para inspeccionar os navios que chegavam e visitar livrarias e bibliotecas. Um índice de obras proibidas foi preparado pela primeira vez em 1547: sucessivas ampliações culminaram na gigantesca lista de 1624 - a mais recomendada para salvar as almas dos portugueses.
(...)
Claro que era impossível isolar um país envolvido no concerto da Europa e na disputa por um império. Os diplomatas e agentes portugueses no estrangeiro regressavam ao país com uma mensagem de que o resto do mundo estava a avançar, enquanto Portugal ficava parado no tempo. Esses "estrangeirados" - uma alcunha prejurativa - atraíam profundas suspeitas pois estavam "contaminados". A sua rejeição estava implícita no orgulho português, profundamente desastroso. Eles perceberam o que poucos portugueses podiam ou queriam ver: que a busca da pureza cristã era estúpida, que o Santo Ofício da Inquisição era um desastre nacional; que a igreja devorava a riqueza do país; que o fracasso do governo em promover a agricultura e indústria tinha reduzido Portugal ao papel de "melhor e mais lucrativa colónia de Inglaterra". através desse isolamento auto-imposto, os portugueses perderam a competência até mesmo nas áreas que anteriormente tinham dominado."De lideres da vanguarda da teoria e prática de navegação passaram em ambas a andar sem rumo, muito atrás dos outros", como afirmou D. Luís de Cunha, por altura da assinatura do Tratado de Methuen.

Riqueza e Pobreza das Nações: Porque são algumas tão ricas e outras tão pobres

David S. Landes, Gradiva 2002

2 comentários:

  1. António,

    Acho que você é quem eu penso que é!!!
    Se for um grande beijo.

    Através dum comentário seu ao meu querido Luís Lacerda vi o seu blog.

    Há comentários , que nunca são exaustivos, porque, já não tenho paciência para entrar "em conflito" com beatos, preconceituosos, incultos, ignorantes, intolerantes e católicos praticantes, até rima!!!

    A minha maior amiga é judia, de ascendência Líbia e vive em Roma.

    É inaceitável a posição que o nosso país, ao longo dos séculos, teve para com osnossos irmãos judeus.

    Não nos esqueçamos do trabalhinho feito por Salazar aos pobres judeus que escapavam e chegavam aqui, com a certeza de finalmente terem PAZ.

    Ser judeu acima de tudo é a forma de estar na vida, como só eles conseguem!!!

    Estive várias vezes em Israel e tive a sorte de conviver como se fosse uma judia mais.
    Sou amiga de Aviva Dayan, que me deu o livro do Pai autografado e que eu guardo não como um tesouro, mas como uma "bíblia",.
    O livro, aliás, em Francês chama-se, "Vivre avec la Bible", e, não o canso de reler.

    Eu sou arraçada de judia, budista e cristã.
    Católica, por baptismo.
    Seria conversa para muitas horas mas, talvez um dia, face to face.

    Um abraço e até sempre

    Badinha Nazareth

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  2. Obrigado Badinha.Sim sou eu,judeu pelo lado da minha mãe, Pomar da Silveira, da Galiza.Mais uma vez obrigado pelo seu comentário.

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