quarta-feira, 21 de abril de 2010

TV PORTUGAL TV

Há anos que eu, felizmente, não sintonizava bem a televisão portuguesa. A má recepção, no lugar onde vivo, dos canais portugueses, e a boa recepção espanhola, fizeram com que nunca redireccionasse a antena para as lusas transmissões. Entretanto a Espanha muda a sua televisão de analógica para digital, sendo necessário um aparelhómetro para se poder receber o novo sinal, instrumento completamente esgotado do outro lado do rio, e à venda deste lado por mais do dobro do preço, 60€. Com este contratempo por resolver, fui obrigado, para não ficar desligado do mundo, a preparar a antena para ver Portugal. Ao fim de tantos anos, ver Portugal foi uma surpresa desagradável. Muito desagradável.
Eu ligo a televisão para não estar só, quando estou a trabalhar, mas não presto qualquer atenção ao que estão a dizer, olhando, de quando em vez, quando me apercebo que algo parece interessante. Mas com a televisão portuguesa, sou obrigado a estar com atenção permanente, tal as barbaridades que oiço.
Por exemplo, o com, transforma-se constantemente em ca. O João ca noiva; o Presidente da República viajou ca mulher para a Polónia; o pai ca mãe, o homem ca mulher, o galo ca galinha, o locutor ca caca da língua mal falada. Isto o que é? Que país é este que não é a Grécia, como agora têm o costume de dizer? É Portugal!
Também vim a perceber que deve ser preciso ser médico para fazer os programas da manhã e da tarde, pois logo que liguei o aparelho, havia um senhor e uma senhora, dos que dizem ca mãe, que começaram o dia a falar do cancro da próstata, seguindo para o da mama e terminando na língua. Estarrecido e apavorado ao acordar, esperei paralisado pelo assunto seguinte que, como não podia deixar de ser, era a infelicidade de uma pobre mulher que tinha perdido todo o pouco que tinha, por causa de uma inundação que Natureza lhe mandou, possivelmente a mando de todas as estações de TV portuguesas, para que se pudesse fazer o programa daquele dia. De certeza que havia notícias sem drama, mas isso não dá, o povo não quer. O povo quer sangue e ele é que vê TV. A crise esteve omnipresente do princípio ao fim, nos cancros com a greve dos enfermeiros e a falta de dinheiro, na senhora que perdeu a casa, porque não havia dinheiro para lhe arranjar outra e os lares de terceira idade estarem cheios e não poderem aceitar ninguém por estarem na penúria. A crise e a desgraça. Não haverá um cantor qualquer, ridículo, a cantar mal uma letra apavorante, mas que nos fizesse rir? Não, não, esses que aparecem vestidos de mulher a dias, ou da aldeia onde nunca foram, e a falar como maluquinhos, não têm graça nenhuma. Esses, repito, não!
E há, ainda, entre tantas coisas que não estou com paciência para referir, os tratamentos, ou seja, como se dirigem uns aos outros. Por exemplo, num determinado momento fazem entrar uma senhora cercada de crianças , adolescentes e filhas. Arrumada esta tribo para um canto, sentam a velha e começam a tratá-la como avó para aqui, avó para ali, a chamarem os netos de netinhos amorosos, netinhos reguilas, netinhos bem comportados. Tenho sempre a esperança que um dia um netinho faça xixi pelas pernas abaixo, ou se agarre à mãe a dizer aos berros que está todo borrado. Depois há os bébés, as mamãs, os papás, as titis, sendo toda esta parafrenália despedida com gigantescos ramos de flores, autênticos repolhos coloridos embrulhados em papel crepon amarelo, intransportáveis e inofrecíveis.
Atrás dos entrevistados e entrevistadores, há pessoas, sempre as mesmas pessoas todos os dias, que vão fazendo expressões segundo o relato da ocasião, espanto e abanões laterais da cabeça, de preferência com os olhos levantados ao céu, quando um pai mata o filho à pancada, os chamados agressores que agridem, como ouvi dizer esta manhã; a expressão séria, olhar fixo em frente, como se olhasse para trás da câmara, pode ser utilizada para desastres, enquanto que dizer que sim com a cabeça se pode ligar a casamentos desfeitos, maridos que batem nas mulheres ou, e aqui a força do gesto parece querer dizer um sim que não vem só, por exemplo: Quando a locutora diz que também há mulheres que batem nos homens, o abanar da cabeça na vertical tem de dizer sim,sim; ora então; aí é que é; ah pois é! E os risos alvares ou alarves, com as cabeças atiradas violentamente para trás, são reservados para quando o locutor diz que leva seis donuts na pila, quando vai levar o pequeno almoço à mulher, por ter as mãos ocupadas com o tabuleiro.
Não consigo dizer mais. Estou num estado de nervos que temo pela minha saúde mental.

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