quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

SINAGOGA DE TOMAR

No livro onde estão publicados os artigos, publicados no jornal portuense Primeiro de Janeiro pelo meu amigo Dr. Carlos da Silva Lopes, intitulado Estudos de História da Cerâmica, encontrei um onde se encontra uma referência à utilização dos cântaros de barro para aumentar a acústica de uma sala, algo de que já tinha ouvido falar na Andaluzia, mais propriamente em Ronda. Como esta referência se refere à Sinagoga de Tomar, alarguei a transcrição pelo seu interesse.
"O meu excelente amigo João Miguel Santos Simões, há anos falecido, publicou em 1943 um interessantíssimo trabalho que intitulou Tomar e a sua Judiaria, em edição do Museu Luso-Hebraico. Nesse ensaio, fazia a história resumida da comunidade judaica tomarense e, com o desenvolvimento que lhe era possível, o estudo da reconstrução e vicissitudes que atravessou o pequeno edifício da Sinagoga, construído possivelmente depois de feita a cripta da colegiada de Ourém, nos meados do século XV, «muito cerca de 1460».
Santos Simões baseava a sua hipótese nas afinidades arquitectónicas entre a Sinagoga e a cripta da igreja mandada construir por D. Afonso, conde de Ourém e marquês de Valença, primogénito do primeiro duque de Bragança. O marquês de Valença falecera em 1460, ainda em vida do duque seu pai. Por morte deste, sucedeu, na Casa, o segundo duque D. Fernando, donatário de várias judiarias em Portugal. Uma vez que no tempo de D. Fernando foram executadas todas as obras da cripta da Colegiada de Ourém, neste facto firmava Santos Simões a presunção de que os artífices que houvessem trabalhado nessas obras construíssem depois a Sinagoga de Tomar. A circunstância de existirem em Tomar, no tempo de D. Manuel, canteiros com nomes evidentemente islâmicos dava a Santos Simões algum reforço para a sua hipótese.
Decretada em 1496 a expulsão dos Judeus e executada no ano seguinte, ficou sem aplicação o edifício da Sinagoga, situado na actual Rua do Dr. Jacinto, antigamente denominada Rua Nova. Aí fora instalada a cadeia da terra, talvez nos primeiros anos de século XVI. Manteve-se na pequena construção a cadeia da terra até que, em data não conhecida, , foi o edifício aplicada ao exercício do culto cristão. Num dos assentos dos livros mais antigos da freguesia de São João Baptista foi registado em 1613 um casamento que se realizara na antiga Sinagoga, já designada por «Ermida de São Bartolomeu». Ignora-se em que época foi profanada a capela, mas as recordações das pessoas idosas que santos Simões conheceu levou-o a «depreender que este facto já se deu no século passado».
Em 1923 foi o edifício comprado pelo Eng. Samuel Schwartz, que, em 1939, o doou ao Estado, para a instalação do Museu Luso-Hebraico. Passado tempo, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais executou ali obras de reintegração, das quais resultou ficar a descoberto a porta primitiva- de ogiva lanceolada- e restabelecido o nível do pavimento da Sinagoga."
E chega então a referência aos cântaros de barro, verdadeira origem desta transcrição.
"Ainda antes destas obras, o Eng. Samuel Schwartz realizara algumas pesquisas e durante elas apareceram «oito bilhas de barro, semelhantes, mas de diferentes tamanhos, alveoladas nas paredes e apresentando à superfície apenas os orifícios dos gargalos, ligeiramente inclinados para baixo». Foram encontradas estas bilhas nos quatro cantos do interior. Por falta de cuidado ou propositadamente, os operários quebraram algumas das bilhas, mas quando, anos depois, no propósito de ocupar os alvéolos das bilhas que tinham sido partidas, foi resolvido mandar copiar a que se encontrava em melhor estado e fora guardada no Museu da União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, apurou-se que a bilha quatrocentista «era precisamente igual» às que, volvidos quatro séculos e meio, ainda se fabricavam. Serviam as bilhas, segundo parece, para melhorar as condições acústicas da sala de oração."

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