
A nossa peregrinação à capelinha de São João da Fraga, em Pitões das Júnias, é do tamanho do templo, pequenina, mas é difícil o caminho. Já era feita antes da cristianização do lugar sagrado dos povos antigos. Ali, no alto, dominando o espaço, menos o ocupado pelas altas montanhas, morada dos Deuses a quém se ergueu o antigo altar, está o «Centro».
" O «Centro» é pois a zona do sagrado por excelência, da realidade absoluta. Do mesmo modo, todos os outros símbolos da realidade absoluta (Árvores da Vida e da Imortalidade, Fonte da Juventude, etc.) encontram-se num Centro. O caminho que conduz ao centro é um «caminho difícil» (dûrohana), e isso verifica-se a todos os níveis do real: circunvoluções complicadas de um templo (como o de Barabudur); peregrinação aos lugares santos (Meca, Hardwar, Jerusalém, etc.); peregrinações aventurosas das expedições do Velo de Ouro, das Maçãs de Ouro, da Erva da Vida, etc.; prisões em labirintos; todas as dificuldades dos que procuram o caminho para o «si», para o «centro» do seu ser, etc. O caminho é árduo, semeado de perigos, porque é, efectivamente, um rito de passagem do profano ao sagrado; do efémero e do ilusório à realidade e à eternidade; da morte à vida; do homem à divindade. O acesso ao «centro» corresponde a uma consagração, a uma iniciação; a uma existência, ontem profana e ilusória, sucede agora uma nova existência, real, duradoura e eficaz."
Mircea Eliade "O Mito do Eterno Retorno"
E, depois da transformação, do regresso do «Centro», a felicidade, a festa da união entre os iniciados, comendo e dançando de roda, o círculo sagrado, por baixo dos ramos frondosos do grande carvalhal, as árvores da vida, morada dos espíritos dos Deuses protectores dos homens.
É, simplesmente, isto que acontece no São João da Fraga, onde a união entre os iniciados é ainda simbolizada pelo compartilhar da comida que se estendeu, sobre a Terra Mãe, em cima das mantas.

Não sabias que tinhas um blog! Gostei mas tenho que lhe dedicar mais tempo. Li o texto sobre o São João da Fraga e como já tive o previlégio de percorrer o longo caminho creio poder acrescentar-lhe um pedaço do cântico das mulheres lá no alto da serra: "ALELUIA, PAZ NA TERRA, PAZ NO CÉU". E eu que não sou crente, comovi-me ao ouvi-las cantar.
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