



Ao abrir a porta do cabaret, "O Marialva", deparou-se-lhe o mundo escuro e turvo, cheio de fumos e odores, misturados. Mundo, ainda, de pecados, paixões e ciúmes, crimes e doenças venéreas conseguidas depois de uma dança rebolada, com um mulata, ao som do Roberto Carlos do "Calhambeque".
Era a primeira vez e, por isso, tinha de estar completamente descontraído, de forma a que ninguém notasse que, aqui, como na guerra, era apenas um "Maçarico" perdido dentro de uma caixa de divertimentos.
O cartaz anunciava o grande número de striptease lésbico, executado por duas japonesas do Brasil, terra irmã que se apresentava ao mundo do outro lado do Atlântico, em cujas águas se deslocava, a gosto, Yemanjá, a Rainha do Mar, umas vezes para as ondas de lá, outra para as de cá, sua casa e lugar de nascimento, antes de emigrar à força, acompanhando os escravos a quem conseguiram roubar tudo, menos a dignidade e os seus credos religiosos.
De um pouco mais de longe, um outro lugar de África, terras de Yorubas, partiu para o Brasil, Oxumaré, de quem este que vos escreve é filho, com muita honra e amor. Oxumaré é o senhor dos opostos, do bem e do mal, do dia e da noite, positivo e negativo, Yng e Yang. Com ele, a serpente que morde a própria cauda, é símbolo do infinito , da continuidade. Ela representa a força vital do movimento e da acção. Tão forte é Oxumaré, que é ele quem suporta o Mundo e não o deixa desintegrar. Dono do arco-íris, todas as cores lhe pertencem, mas prefere o amarelo, o vermelho, o verde e o azul. Ele é a riqueza e a fortuna. Muito havia para dizer, mas é melhor deixar a coisa por aqui, neste momento...
E que tem a haver o rapaz que, pela primeira vez, entrou no cabaret de Luanda, com o que estou aqui a escrever?
Ah! É que ele também é de Oxumaré, como veio a saber mais tarde, no mato, pela boca de um sekulo, grande amigo de Nzambi, fumando maconha na frente de uma fogueira, de onde serpenteava um fumo fininho, que dificilmente se libertava das entranhas da sua mãe-brasa. Um fumo que fazia saltar as lágrimas dos olhos do Tomé, o preto amigo que o levara até ali, contra as medidas de segurança da tropa, sempre preocupada com algum turra que pudesse...Bom! Isso já é outra história.

lindo texto!
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