Ontem o dia 1 de Maio caiu num Sábado e, talvez por isso mesmo, o Diabo andava ainda mais à solta que de costume.
A Vila estava a abarrotar de desconhecidos, caracóis que meteram a cabeça de fora com meia dúzia de raios de Sol aparecidos a medo de nuvens que vinham não se sabe de onde, porque o vento andava em grande reboliço lá por cima. Pessoas que procuravam sítio para comer em toda a parte, restaurantes ou prados à sombra das grandes árvores, onde se sentavam em mesas compridas, desarmáveis, transportadas em carros que cheiravam a comida quente, corpos e caca de bébé embrulhada em fraldas que a boa civilização manda guardar até se encontrar um lugar adequado para as deitar. Gente que se arrastava, devagar, por baixo de vestidos e calças, camisas e fatos de banho, toalhas e sapatilhas penduradas nos estreitos, quentes e poeirentos corredores da feira semanal.
Um desassossego que se vai repetir, todos os Sábados, pelo Verão fora, seja dia 1 ou outro qualquer.
Lá para as seis da tarde, desaparecem os portugueses, muito atarefados, muito cheios de horários e coisas para fazer, esfumam-se dentro de potentes carros que só suportam dentro de si roupas de marca, mesmo que seja de feira.
Os galegos, esses ficam a gozar a vida, porque mesmo em crise, o dia seguinte é forçosamente sempre Domingo, não têm nada que fazer em casa e gostam de beber nas esplanadas copos que chamam aperitivos para o jantar tardio num qualquer restaurante deste ou do outro lado do rio Minho.
Olho quem passa, com preguiça e aborrecido por ter descido do monte e vejo uma que trabalhou no correio de Viana, viúva há mais de dez anos, que vista ao longe parece um pequeno monte de pano preto.
Junto do rio, para trás e para a frente, pessoas e mais pessoas, crianças a correr ou a pedalar em estranho carrinho que têm uma bandeira atrás, tipo estandarte de senhor da guerra de um filme japonês, bicicletas, cães com e sem coleira, pescadores de profissão e outros que o não são, e sacos, muitos sacos plásticos cheios absolutamente de tudo.
Um inferno onde o Mafarrico se diverte e que obriga qualquer pessoa de bom senso retirar-se para casa, sentar-se na varanda, olhar o rio e ler um bom livro. Foi o que fiz, cansado de tanta gente junta. Abri à sorte a Náusea do Sartre e...
"Segui lentamente pela comprida galeria, cumprimentando de passagem, sem me deter, as caras selectas que saíam da penumbra: o senhor Bossoire, presidente do Tribunal do Comércio, o senhor Faby; o presidente do conselho de administração do porto autónomo de Bouville, o senhor Boulange, negociante, com toda a sua família, o senhor Rannequin, presidente da Câmara de Bouville, o senhor Lucien, nascido em Bouville, embaixador da França nos Estados Unidos e poeta, um desconhecido em trajos de perfeito, a Madre Santa Marie-Louise, superiora do Grande Orfanato, o senhor Théréson e esposa, o senhor...
Não existem coincidências?

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