sexta-feira, 14 de maio de 2010

EMIGRANTES

Sentado na proa do barco, olhavas o horizonte onde o Sol se deitava e enquanto me dizias que o futuro era no lugar da cama do Rei, pensavas já que era uma viagem sem retorno. Nada. Éramos demasiado pobres, demasiado famintos, analfabetos e desejosos de coisas, para quem não sabia nada. Já nem sequer te lembravas da tua última imagem, quando fazias a barba, reflectida no espelho emoldurado por uma risca vermelha, fina, de plástico barato. Tudo era barato, nas nossas vidas, e com esta louca ideia de ir à procura do futuro, nas nossas vidas tudo iria sair caro, muito caro, desses preços que se não podem pagar com dinheiro, mas com carradas de esperança mole e imbuída de Avé Marias e Padre Nossos, cantados como um mantra que ecoava nas paredes putrefactas da igreja húmida, onde até o ouro dos altares há muito se tinha transformado em poalha amarela, dançante, nos raios do Sol da manhã. Tínhamos manhã, mas não amanhã, dizias tu. No teu olhar não havia medo da terra do outro lado do mar grande. O teu pavor era demasiado simples. Não sabias nadar. E eu sabia que não nadaríamos em terra, os dois, perdidos na imensidão das promessas por cumprir. Éramos dois nadas, perdidos no nada da grandeza do Oceano, sem nome para nós, que apenas lhe sabíamos chamar mar.
Suspensos do ar, ficaram os nossos lenços a acenar para ninguém e toda a gente, no cais.

1 comentário:

  1. Meu bom amigo ainda nao tinha tido oportunidade de ler algo da sua faceta mais romantica,achei lindo ate enternecedor,continua a ser um poeta mesmo em prosae fico a espera de mais.O jardim que trata com tanto amor esta repleto de flores qual delas a mais bela,assim eu vejo suas obras desde a pintura a escrita.Obrigada por partilhar sua ARTE.

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