quinta-feira, 25 de março de 2010

VÉSPERA DA EXPOSIÇÃO DE VISEU

10 de Nisan de 5770

«Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos. Difícil, exactamente, porque não envolve esforço. Tentas não ser isto nem aquilo, nem grande nem pequeno, nem hábil nem desajeitado...estás a perceber? Fazes o que te vêm à mão. De boa vontade, bien entendu. Porque nada há que não tenha importância. Nada. Em vez de risos e aplausos, recebes sorrisos. Pequenos sorrisos de satisfação - e é tudo. Mas é justamente o próprio tudo...mais do que alguém pode pedir. Fazendo o trabalhinho sujo, alivias as pessoas dos seus fardos. Isso torna-as felizes, mas a ti torna-te ainda mais feliz, compreendes? É claro que deves fazê-lo sem ostentação, por assim dizer. Nunca deves mostrar o prazer que te dá. Se te deixas apanhar, se te descobrem o segredo, estás perdido. Chamar-te-ão egoísta, faças por elas o que fizeres. Podes fazer tudo por elas - mesmo a matar-te de trabalho - enquanto não suspeitarem que te estão a enriquecer dando-te uma alegria que nunca poderias dar a ti próprio...Bem, António, desculpa, não vim aqui para fazer discursos. Seja como for, esta noite és tu que me dás um presente. Esta noite posso ser eu próprio sendo tu. O que é ainda melhor do que ser tu, compris?»

"O Sorriso aos Pés da Escada" Henry Miller


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