quarta-feira, 24 de março de 2010

APONTAMENTOS DA VILA

Com o sol a aparecer, quase todos os dias, deu-me vontade de dar umas voltas pela vila, sem destino definido. Passei em casa da Sãosinha, uma senhora de Igreja, amante de padres e de suas ideias, mas com quem mantenho uma relação pacífica, por razões tão variadas que seria fastidioso enumerá-las. Toquei e ouvi a campainha, que ela trouxe da sua viagem a Viena, não Viana onde vai todas as semanas pelo menos uma vez, que me irrita com os primeiros compassos do Danúbio Azul. A empregada, uma criada, demorou o tempo necessário para pôr o avental que a patroa obriga a usar, sempre que vem à porta e, ao ser interrogada do paradeiro da senhora, respondeu, metendo a cabeça fora do portal e olhando para os dois lados, que:
- A senhora não está. Foi dar umas voltas que tinha a dar!
Já há alguns anos que não ouvia este género de explicação. Dar umas voltas que tinha a dar...que voltas dará a Sãosinha.
Desiludido por não ter nada que fazer até à hora do comboio, andei na direcção do café do Terreiro, sem deixar de passar pela loja do Teixeirinha, homem esguio, cara marcada pela ossatura e bigode de Kaiser, que gere uma loja de tecidos antigos. Digo antigos porque a última remessa recebida, deve ter sido nos anos sessenta. Estar cinco minutos dentro deste estabelecimento, proporciona-me bem estar. O Teixeira é um mimosinho, que não perde uma oportunidade para galantear as clientes que trata sempre por Vocência, seja ela quem for, independentemente mesmo do grau de confiança. Uma mulher é sempre Vocência. Para minha sorte a Júlia da Ribeira veio comprar uns botões, o Teixeira também é retroseiro, e pude ouvir o piropo:
- Vocência, dona Júlia, tem um vestido que lhe assenta como uma luva de camurça. O que chamam no estrangeiro secãode sequine, como já ouvi dizer a uma inglesa que viveu aqui uns anos, fugida da guerra, coitada, sem saber a guerra que lhe iam fazer aqui.
Assistido mais um acto desta tragi-comédia, consegui chegar ao café onde me sentaria beberricando a ver o tempo passar. Sentei-me na esplanada, mas logo entrei, arrependido de não ter reparado que o sol ainda é de primavera fresca. Pedi o café e o bagaço, eu não gosto de café nem de bagaço, gosto de café com bagaço, e comecei a tentar ler um jornaleco de paróquia editado por um padre de uma aldeia vizinha, que oferece e vende os produtos da Caritas. Além de estar cheio de erros, conta quem morreu,quem nasceu, quem se baptizou e a evolução do padre,internado no hospital de Viana, onde só me meteriam à força ou desmaiado. A porta para o Terreiro, ainda está com a mola, pelo que se fecha a cada entrada mas, desta vez abriu-se com violência deixando entrar uma mulher enorme que vinha a toque da Cavalaria Rusticana. Ao chegar ao balcão, deu duas bofetadas num homem ali sentado, um que não era de cá, e saiu já com a Marcha Triunfal da Aída, bambaleando as ancas, lentamente, ao jeito de habanera de Carmen.
Ninguém sabia quem era a mulher, nem o homem, mas as conversas e opiniões estalaram num ápice. Que se o homem fosse dali, e homem, tinha-lhe dado uma coça que ela já não ia a parte nenhuma; que quem se metia com mulheres daquele tipo não levava vida; que quando se vai com gente desta,há que pagar; que se quisessem armar lios (estamos na raia) que se fosse liar com ela para outro lado; que o café era de gente honrada e temente; que, e que , e que.
Nestas alturas costuma-se romper qualquer peça dentro de mim, porque me rio sem concerto.
A empregada/criada da Sãosinha veio dizer que a senhora já estava em casa, mas tive de responder que já era tarde e tinha de ir no comboio que estava para chegar, e ela disse-me que era uma pena porque a patroa tinha uma tigelas de marmelada para eu levar; o padre da vila passou para o restaurante de que é proprietário e o rapaz da estação avisou-me que era melhor ir andando.
Fui.
Não! Nem pensem nisso! Vivo estas situações em pleno século XXI, felizmente.

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