quinta-feira, 18 de março de 2010

Incapacidade

Quando chego à varanda, num dia de sol como este, vejo a casa branca e feia, que construiram mesmo por baixo, junto de um carvalho frondoso, acréscimo sem nexo feito sobre uma antiga construção de pedra, dessas que se faziam junto das eiras para guardar o grão malhado e as alfaias; a torre da capela de São Sebastião, outrora branca de cal e agora de Cin, um pecado que rouba a expressão dada pelas camadas sucessivas de caiações centenárias e, da Ilha dos Amores, as pontas das suas árvores infestantes, que a isolaram dos passeios dos amantes que lhe deram o nome; o rio, o Minho, une-me à Galiza espanhola, deste lado fica a portuguesa evidentemente, (deste lado o Alto Minho e do outro Baixo Miño) onde os vinhedos do Rosal criam as uvas que me alegrarão os dias quentes depois de transformadas em fresco Alvarinho; Goyan; Tomiño ao fundo e o correr de montes que escondem Tui; e do outro lado, virando-me para A Guarda e Santa Tegra, o Niño do Corvo, frente a Seixas, um pico redondo, alto, recortando-se no céu azul, cansado de ser cinzento durante tanto tempo.
Vê-se muito mais. Vê-se tudo, mesmo as rias que estão escondidas pelas montanhas. E há muito mais para ver. Muito mais.
Quando volto as costas à paisagem, não consigo ver nada que se possa descrever para lá do escuro que se desenha dentro da porta da sala.
Assim se encontra o meu cérebro, sem me deixar escrever nada, com nitidez, daquilo que se passa dentro dele...
"O melhor seria escrever os acontecimentos dia a dia. Fazer um diário para os considerar com clareza. Não deixar escapar as diferenças de pormenor, os factos miúdos, mesmo quando parecem insignificantes, e sobretudo ordená-los. Tenho de dizer como é que vejo esta mesa, a rua, as pessoas, a minha bolsa de tabaco, visto que foi isso que mudou. tenho de determinar exactamente a extensão e a natureza dessa mudança."
"A Náusea" Jean - Paul Sartre

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