Hoje, já tarde, tocaram o sino do portão do jardim com tanta força que fiquei irritado. Quando se está tranquilamente, num dia de Inverno, lendo, neste caso, relendo, o "Pedro Páramo" do Juan Rulfo, com um aconchegador fogo crepitando no fogão da sala, nada pior que o som de um sino que nos obriga a ir lá fora, mesmo que envoltos numa capa barrosã, receber na cara o vento gelado que tem aparecido nestes dois últimos dias. Experimentem. Por isso, enrolei-me um pouco mais no sofá, quase atingindo a dita posição fetal, decidido a não abrir a ninguém, nem ao Papa (a esse não abriria nunca, pois podia lembrar-se de, num acto de fé, me atirar para dentro da fornalha incandescente do fogão). Mas a sineta não parava, e acabei por me lembrar que não podia estar escondido, com o fumo a sair, pesado, porque o fumo desta época é pesado e recusa-se a sair do quente das telhas, da grande chaminé amarela. Fui abrir. Era a da frente, a que vê a Santa Companha e a Procissão dos Mortos, ou das Almas. Tinha um problema com uma carta que tinha vindo da Inglaterra, ou seja não sabia inglês, esse o verdadeiro problema e:
Era uma carta referente à reforma do seu irmão, uma reforma muito boa de 2000€, que ela nem sabia como ele a tinha arranjado, nem o que tinha feito para receber tal quantia, pois ela tinha trabalhado toda a vida para ganhar uma cheta nesta porcaria de país, que nem é país nem é nada e até anda a roubar aos pobres o pouquinho que eles têm, e até estava com medo que viessem por trás, para sacarem impostos de um dinheiro limpo, já que se o fizessem ele, o irmão, poderia vir a pensar que era ela que lhe ficava com o dinheiro, ela que quando trabalhou na costura nunca tocou num alfinete e...
Embrulhado na capa de burel, com a capucha enfiada na cabeça, eu naquele momento pensava duas coisas, quase ao mesmo tempo. Uma delas era matar a mulher, mas não estava perfeitamente lúcido para me desfazer do corpo e a outra era sobre a sorte que a Morgadinha dos Canaviais tinha, naquele seu tempo, por os emigrantes do Brasil não terem reformas para se preocuparem.
Que coisas aborrecidas se passam ao Domingo...só ao Domingo, o dia mais aborrecido de todos os dias.
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