quinta-feira, 12 de agosto de 2010

12/12/2012


"Hoje finalmente contei Maimoun o que me levou a empreender esta viagem, pedindo-lhe que me dissesse, com a franqueza de um amigo, os sentimentos que as minhas palavras lhe inspiravam. Não deixei nada na sombra...

- Tu falaste-me como a um irmão. É a minha vez de te abrir agora o coração. As razões da minha viagem não são assim tão diferentes das que acabas de me expor. Também eu parti pelas estradas por causa desses maldito rumores. Contra minha vontade, praguejando contra a credulidade, a superstição, os cálculos e os pretensos "sinais", mas parti em todo o caso, não pude deixar de fazê-lo, senão o meu pai morreria. Nós somos, tu e eu, vítimas do desatino dos nossos próximos...

Leitor assíduo dos textos sagrados, o pai de Maimoun está persuadido desde há muitos anos de que o fim do mundo está iminente. Segundo ele, está escrito com todas as letras no Zohar, o livro dos cabalistas, que no ano de 5408, aqueles que repousam na poeira se erguerão. Ora esse ano do calendário judaico corresponde ao ano de 1648 da nossa era.

- Isso foi há dezassete anos, e a Ressureição não aconteceu. Apesar de todas preces, de todos os jejuns, de todas as privações que o meu pai nos impôs, à minha mãe, às minhas irmãs e a mim, e que época nós aceitávamos com fervor, nada aconteceu. Desde então, perdi todas as minhas ilusões. Vou à sinagoga quando é preciso que lá vá, para me sentir próximo dos meus, rio com eles quando é preciso rir, choro quando é para chorar, para não me mostrar insensível às suas alegrias ou às suas desgraças. Mas já não espero nada de ninguém. Ao contrário do meu pai, que não ficou mais ajuizado. Ele não pode admitir que o ano profetizado pelo Zohar tenha sido apenas mais que um ano vulgar. Está persuadido de que alguma coisa aconteceu, nesse ano, de que nós não ouvimos falar, mas que em breve se nos revelará, a nós e a todo o universo.

Desde então, o pai de Maimoun não faz mais do que espreitar os sinais, nomeadamente aqueles que respeitam ao ano da espera frustrada. 1648."


Amin Malouf "O Périplo de Baldassare"

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