sábado, 19 de junho de 2010

DIVAGANDO


Depois do almoço, sentado na varanda, olhando os montes do Rosal, penso que é realmente impossível escrever paisagens reais. As paisagens são. Nada mais. Porque todas as que se descrevem não são mais que sentimentos e sensações e, por isso ,só fazem parte da natureza de cada um e do seu estado de espírito, não da Natureza. Nem sequer há, ou houve, pintores que as pintassem, porque, como existem, são impossíveis de pintar.
Por isso, neste dia em que o Verão já começa a sentir-se, se bem que vente, a minha vista dos montes é triste. Paisagem de um homem a quem lhe falta alguém muito querido, alguém sempre longinquamente perto, mas sem presença física. Um sentimento inexplicável. Mas é assim e nada se pode fazer.

O meu irmão Gonçalo, leu isto, e disse que era uma nota, nada mais. Concordo. Mas como já bebi um vinho do Rosal, no chiringuito do meu grande amigo Juan, vou aumentar o texto...
Devia ter a lucidez de parar, mas seria cobardia, e eu, quando sinto que devo fugir, fujo do feio. Odeio o feio, sem o saber definir. Só sei que é feio, muito feio.
Se quero dizer alguma coisa hoje, (vou adorar ser pires), queridos leitores, (estou de Maria) é que estou triste, triste como qualquer pessoa pode estar. Falta-me alguém. Ou nunca vos faltou alguém? Alguém que faz parte da vossa vida, sem cama, porque hoje em dia,(gosto do:hoje em dia) não se pode ser amigo sem cama. A amizade é horizontal. Como se a amizade tivesse qualquer posição. Que...digo, que digo?
A tristeza, como a amizade, ou o amor, embriaga. Acordo de ressaca e, para sair, tenho que ter
dois braços à minha espera. (Fado puro)
E, para não dizer mais asneiras...Boa noite.

4 comentários:

  1. Rever o que se escreve,é ter a consciência de que se não deve escrever.Eu, não tenho a menor consciência.

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  2. um abraço,com dois braços,e sem cama.

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  3. Gostei muito do texto Senhor António.

    Se me puder responder, agradecia...
    gostava de conhecer a perspectiva e alguém aparentemente tão límpido.

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  4. Até serei capaz de subscrever essa de escrever paisagens reais, mas o que aqui se apresenta é a escrita de uma paisagem humana. Gostei da sinceridade. Gostei do "estar de Maria".
    Gostei da coragem.
    Viva a Palavra!

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