sábado, 19 de dezembro de 2009

Da Impossibilidade da Compreensão

São horas,Tempo, para conseguir entrar aqui. Já me tinham dito que os computadores eram feitos para burros. Possivelmente, como não tenho nada para dizer e dou erros de português, tipo Escola Primária, esta máquina inteligente, quer afastar-me deste género de comunicação, defendendo os meus interesses e os dos possíveis leitores.

Levo tempo a compreender, mas consigo comer sempre na mesma manjedora, como aqueles para quem foi criada a maquineta.

Tempo de Natal, tempo de contrição, como diz a minha grande amiga Manela.
Mas direi que também é tempo de ouras coisas...

Sentados à mesa, ouvimos as melhores falas da temporada, porque durante o ano conversamos tranquilamente de todos os assuntos, salvo aqueles que, carinhosamente, reservamos para o fim da ceia natalícia.

- Porque não te habilitaste ao jazigo da família, não quer dizer que não tenhas que pagar as obras necessárias. Eu sei que sou o responsável pela manutenção, mas tens de pagar aos homens que têm de tirar a avó de cima do avô, porque a prateleira se partiu, com o tempo, e não podem estar assim. Além disso, a humidade atacou a tia Guida, que como sabes pagou um caixão de primeira que se está a estragar. E o nosso primo Bentinho?

Eu como um bocado de mexidos, bebo um trago de vinho do Porto de maravilhosa colheita, oferecido por um senhor que deve favores, olho o Cuidador das Campas, estendo as pernas, bem refastelado às costas da cadeira D. José e, inocentemente, pergunto:

-Qual?

Irritado, o Coveiro responde:

-Tu nunca gostaste da família. Tu sempre viveste a tua vida à parte. Tu não queres saber de ninguém, a não ser de ti próprio. Tu não respeitas esta reunião sagrada. Tu...

Interrompido pela tia Augustinha, surda, e grande apreciadora do vinho do Douro, o Chefe das Campas, irritado, ouve-a respeitosamente, já que esta senhora tem uns suculentos terrenos na cidade (Porto).

-Oh! menino, basta erguer o copo e fazer a saúde aos presentes e aos ausentes, como o seu avô fazia, sem tanto palavriado! disse a augusta tia, mais morta por se ir embora do que ficar, sentada no sofá da sala, à espera que a levem para a Rua do Alexandre Herculano, onde mora, e para onde quer ir rapidamente, ver televisão, porque, segundo ela, passam programas estupendos nesta época, e onde pode ver o próprio Papa a rezar a Missa do Galo, que como é de Roma, em directo, mais se devia chamar Missa do Capão, que este ano está caríssimo.

-Este Bolo Rei , não é do mesmo sítio do do ano passado.

Felizmente alguém se lembrou de mudar a conversa, para algo interessantíssimo. Este bolo, redondo e enfeitado como a coroa da Rainha do Sába, é sempre motivo de discórdia. A conversa vai-se desenvolvendo, as crianças vão adormecendo, espalhadas por todos os cantos, perfeitamente abandonadas pelos pais que já não as conseguem suportar, até que se chega ao ponto:

-Já nada é como dantes!

Eu encolho-me, bebo mais vinho do Porto, fumo um cigarro, tento parecer distraído com um presente que me deram e não serve para nada, se bem que tenha sido comprado a pensar que eu nunca gosto do que me dão, e é certo, como uma rabanada intragável, feita todos os anos por uma prima afastada que vem passar o Natal para não ficar só em casa, a pobrinha e, aterrorizado, espero o discurso da Democracia.

Porque desde o 25 de Abril que nem sequer se pode ir à praia, já que hoje em dia toda a gente tem carro e invadem tudo, aos gritos, com farneis; que não deixam passar primeiro uma senhora, porque como as não há, não sabem o que é; porque os miúdos se levantam da mesa sem pedir licença; as criadas vão passar o Natal a casa com a família deixando tudo abandonado aos cuidados dos patrões; porque já não há homens que querem ser padres e por isso não há missa da meia-noite; e dantes era tudo muito mais bonito do que agora, porque havia respeito...

A mim, começa-me a apetecer ir para uma discoteca com os mais novos, a nova missa da noite sagrada.

Bom! Chega! Se continuo...

Boa ceia para todos, são os meus desejos mais encarecidos.

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