São horas,Tempo, para conseguir entrar aqui. Já me tinham dito que os computadores eram feitos para burros. Possivelmente, como não tenho nada para dizer e dou erros de português, tipo Escola Primária, esta máquina inteligente, quer afastar-me deste género de comunicação, defendendo os meus interesses e os dos possíveis leitores.
Levo tempo a compreender, mas consigo comer sempre na mesma manjedora, como aqueles para quem foi criada a maquineta.
Tempo de Natal, tempo de contrição, como diz a minha grande amiga Manela.
Mas direi que também é tempo de ouras coisas...
Sentados à mesa, ouvimos as melhores falas da temporada, porque durante o ano conversamos tranquilamente de todos os assuntos, salvo aqueles que, carinhosamente, reservamos para o fim da ceia natalícia.
- Porque não te habilitaste ao jazigo da família, não quer dizer que não tenhas que pagar as obras necessárias. Eu sei que sou o responsável pela manutenção, mas tens de pagar aos homens que têm de tirar a avó de cima do avô, porque a prateleira se partiu, com o tempo, e não podem estar assim. Além disso, a humidade atacou a tia Guida, que como sabes pagou um caixão de primeira que se está a estragar. E o nosso primo Bentinho?
Eu como um bocado de mexidos, bebo um trago de vinho do Porto de maravilhosa colheita, oferecido por um senhor que deve favores, olho o Cuidador das Campas, estendo as pernas, bem refastelado às costas da cadeira D. José e, inocentemente, pergunto:
-Qual?
Irritado, o Coveiro responde:
-Tu nunca gostaste da família. Tu sempre viveste a tua vida à parte. Tu não queres saber de ninguém, a não ser de ti próprio. Tu não respeitas esta reunião sagrada. Tu...
Interrompido pela tia Augustinha, surda, e grande apreciadora do vinho do Douro, o Chefe das Campas, irritado, ouve-a respeitosamente, já que esta senhora tem uns suculentos terrenos na cidade (Porto).
-Oh! menino, basta erguer o copo e fazer a saúde aos presentes e aos ausentes, como o seu avô fazia, sem tanto palavriado! disse a augusta tia, mais morta por se ir embora do que ficar, sentada no sofá da sala, à espera que a levem para a Rua do Alexandre Herculano, onde mora, e para onde quer ir rapidamente, ver televisão, porque, segundo ela, passam programas estupendos nesta época, e onde pode ver o próprio Papa a rezar a Missa do Galo, que como é de Roma, em directo, mais se devia chamar Missa do Capão, que este ano está caríssimo.
-Este Bolo Rei , não é do mesmo sítio do do ano passado.
Felizmente alguém se lembrou de mudar a conversa, para algo interessantíssimo. Este bolo, redondo e enfeitado como a coroa da Rainha do Sába, é sempre motivo de discórdia. A conversa vai-se desenvolvendo, as crianças vão adormecendo, espalhadas por todos os cantos, perfeitamente abandonadas pelos pais que já não as conseguem suportar, até que se chega ao ponto:
-Já nada é como dantes!
Eu encolho-me, bebo mais vinho do Porto, fumo um cigarro, tento parecer distraído com um presente que me deram e não serve para nada, se bem que tenha sido comprado a pensar que eu nunca gosto do que me dão, e é certo, como uma rabanada intragável, feita todos os anos por uma prima afastada que vem passar o Natal para não ficar só em casa, a pobrinha e, aterrorizado, espero o discurso da Democracia.
Porque desde o 25 de Abril que nem sequer se pode ir à praia, já que hoje em dia toda a gente tem carro e invadem tudo, aos gritos, com farneis; que não deixam passar primeiro uma senhora, porque como as não há, não sabem o que é; porque os miúdos se levantam da mesa sem pedir licença; as criadas vão passar o Natal a casa com a família deixando tudo abandonado aos cuidados dos patrões; porque já não há homens que querem ser padres e por isso não há missa da meia-noite; e dantes era tudo muito mais bonito do que agora, porque havia respeito...
A mim, começa-me a apetecer ir para uma discoteca com os mais novos, a nova missa da noite sagrada.
Bom! Chega! Se continuo...
Boa ceia para todos, são os meus desejos mais encarecidos.

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